10 de dezembro de 2014

A “inocente” Graça Foster

Por Josias de Souza
Dilma Rousseff irritou-se com a sugestão do procurador-geral Rodrigo Janot de que o governo deveria promover as “reformulações cabíveis” na Petrobras, inclusive “a substituição de sua diretoria.” A presidente ordenou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que convocasse os jornalistas.
Após cobrir de elogios a presidente da Petrobras, Graça Foster, o doutor Cardozo pontificou: “A posição do governo é de que não há nenhuma razão objetiva para que os atuais gestores da Petrobras sejam afastados do comando da empresa.” Erro. A ficha de Dilma Rousseff ainda não caiu, mas seu (des)governo fez de Graça Foster uma demissão inevitável, esperando para acontecer.
A presidente da Petrobras é uma senhora austera. Dilma enxerga nela uma honestidade incrível. E a plateia, impressionada com a petrorroubalheira, passou a ver em Graça Foster uma inocência inacreditável. Incrível e inacreditável são palavras da mesma família. Mas têm significados distintos.
A honestidade de Graça é incrível porque é difícil de acreditar que, no meio de tanta lama, ainda é possível encontrar algo tão bom quanto uma reputação inatacável. Sua inocência é inacreditável porque não dá para acreditar que uma mulher como Graça, que dedicou a vida à Petrobras, que ocupa postos de direção desde Lula, é ingênua a ponto de se transformar em mais uma nefasta ilustração do lema “eu não sabia”.
Não adianta brigar com o inevitável. Diante de um pé d’água, a primeira coisa a fazer é encontrar um guardachuva. A segunda, é abrir o guardachuva. A terceira, é tentar se molhar o mínimo possível. Alcançada por um temporal, Graça Foster está ensopada. Ela até dispunha de guardachuva. Mas teve de usá-lo para proteger Dilma.
Você deve se lembrar: a sujeira da Petrobras começou a vazar pelas bordas do tapete depois que Dilma, numa nota redigida de próprio punho, afirmou que teria reprovado a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, se não lhe tivessem sonegado informações vitais sobre o negócio. Desde então, Graça Foster perambula pelo noticiário como um exemplo de administradora inocente, usando sua respeitabilidade e sua boa reputação para justificar o injustificável.
As arcas da Petrobras vinham sendo violadas pelo PT, PMDB e PP desde Lula. Dilma, que foi ministra de Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da estatal, chefe da Casa Civil e mãe do PAC fingiu-se de cega e enrolou-se na bandeira da ética. E não soube de nada! Este é um governo que arrenda a Petrobras à tesouraria clandestina dos partidos e à caixa registradora cartelizada das empreiteiras corruptoras. Mas é Graça Foster quem coloca a boa estampa a serviço da preservação do disfarce.
O Brasil conhecia pouco a diretora de Gás e Energia que Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Nestor Cerveró chamavam de colega até fevereiro de 2012, quando Dilma a nomeou presidente da Petrobras. Mas o destino da Graça Foster de 2014 não lhe estranho ao país. Ela construiu uma carreira notável para acabar como uma marionete que não consegue demitir o apadrinhado que Renan Calheiros acomodou no comando da Transpetro.
As circunstâncias fizeram de Graça Foster administradora de um caos que, até prova em contrário, ela não ajudou a causar. Mas o excesso de inocência, por inacreditável, acabou grudando na presidente da Petrobras não a estampa de uma gestora eficiente, mas a aparência de uma espécie de virgem de Sodoma e Gomorra.

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